“...as organizações tal como os dragões, comem heróis inovadores ao pequeno almoço”


 





#Anais do Clube Militar Naval, Vol. CLIV, julho-dezembro 2024, p. 305-318

Faço aqui alusão e transcrição e, muito a propósito, encontrámo-nos num almoço em maio de 2026 para rever este passado, eu, o Aires da Silva (autor), o Vidal de Pinho e o Soares Lopes.

"A REVOLUÇÃO NO SISTEMA DE INSTRUÇÃO E TREINO (MAIS TARDE FORMAÇÃO)

DOS SARGENTOS E PRAÇAS DA MARINHA

AST-ABORDAGEM SISTÉMICA AO TREINO E OUTRAS INOVACÕES
José Aires da Silva
Capitão-de-mar-e-guerra REF

INTRODUÇÃO
Este artigo, foi escrito com a intenção de relatar, especialmente para os que não tiveram oportunidade de o viver, o período da grande mudança no Sistema de Instrução e Treino da Marinha, hoje Sistema de Formação, no período áureo de 1981 a 1988, em que tive oportunidade de participar activamente.
UM POUCO DA HISTÓRIA
Em 1981 a Marinha foi visitada por um «Mobile Training Team» da U. S. Navy, o qual produziu um relatório sobre o estado dos serviços de gestão de pessoal, incluindo a área da instrução e treino. Entre as recomendações finais, salientava-se necessidade de mandar especializar alguns oficiais em tecnologia educativa, a fim de dar suporte técnico a um conjunto de iniciativas que se impunha tomar em relação a esse mesmo sistema.
Nessa altura a DSIT-Direcção de Serviço de Instrução e Treino era liderada pelo Almirante Encarnação Simões, claramente um Líder visionário, porque, após o relatório do Mobile Training Team, numa das primeiras reuniões da DSIT, da qual eu já fazia parte, proferiu algo como “o nosso sistema de instrução é excelente, provavelmente o melhor das Forças Armadas, mas já não serve pelo que temos que o mudar”.
É importante referir que uma das principais razões para a mudança tinha a ver com a redução significativa no tempo SMO- Serviço Militar Obrigatório, após o 25 de Abril de 1974, sem a correspondente redução no seu tempo de formação.
Isso implicaria que os recrutas na Marinha, eventualmente, quando terminassem o seu tempo de formação estariam na altura de passarem à disponibilidade!!!
E como iremos ver mais adiante, foi exactamente pelo SMO que começou a MUDANÇA.
Um pequeno apontamento sobre como era feita a formação nas Escolas localizadas nos dois Grupos de Escolas, um em Vila Franca de Xira (Grupo nº 1 de Escolas da Armada, e o outro no Alfeite, o Grupo nº 2 de Escolas da Armada).
A formação era dada por Oficiais e Sargentos que para tal tinham frequentado o CPI-Curso de Preparação de Instrutores, iniciado em 1975. Apesar de estarem qualificados para “dar aulas”, não tinham, qualquer preparação no domínio do desenvolvimento curricular, pelo que os programas dos cursos decorriam de “encher” o tempo de cada curso com conteúdos que se achava que os formandos deviam saber!!!! porque era nice to know”. Isto realmente era válido até certo ponto; porém acontece que a experiência individual dos responsáveis pela concepção dos cursos ou seja, pela decisão relativa ás matérias que deveriam ser ensinadas, era necessariamente limitada e assentava na maior parte das vezes, em critérios subjetivos, culminando em situações de formação desnecessária ou em insuficiente preparação em determinados domínios.
Sobretudo em escolas que se digladiavam sempre com problemas de apetrechamento no aspecto material e, na ausência de uma clara definição de funções para as quais se estavam a formar os alunos, era grande a tentação para se cair num ensino teorizado, excessivo, de carácter enciclopédico, numa ânsia de cobrir a maior gama possível de conhecimentos dos quais se iria utilizar, afinal, apenas uma pequena parte.
Destaco, que na sequência do curso que frequentei em 1981 no IABG (Munique) de Planning and Development of Video Training Programes, foi instalado no Grupo 1 de Escolas da Marinha um pequeno estúdio de vídeo, para produção de audiovisuais para apoio à instrução. Claramente uma inovação!!!
O INÍCIO DA MUDANÇA
Ora como o tempo urgia, e não fazia sentido estar a “inventar a roda”, fui designado para ir visitar outras Marinhas da NATO, designadamente, França, Holanda e Inglaterra, e estudar como é que estavam a conduzir a formação de Sargentos e Praças. Comigo foi também um oficial do EMA, o Comandante Coelho Rita.
A primeira conclusão a que chegámos foi que o sistema Francês era muito teórico e complicado e os sistemas Holandês e Inglês eram muito parecidos e orientados para as tarefas que o pessoal tinha de desempenhar.
O sistema Inglês era claramente o mais avançado e designado por SAT - Systems Aproach to Training. Na Marinha o sistema era implementado a partir da RNSET- Royal Navy School o Education and Training, que visitei e onde tudo me foi explicado.
Após as visitas, foi elaborado um relatório intitulado “Bases Gerais de um Novo Sistema de Instrução”, o qual mereceu despacho do Almirante CEMA nº 68/81 de 3 de Novembro aprovando a filosofia do “Novo Sistema de Instrução” baseado no Modelo de AST o qual vinha amplamente explicado no referido relatório e que se pode sintetizar na figura seguinte:
Na sequência deste despacho, estabeleceu-se um protocolo com a as FA´s do UK, para transferência do know how para a Marinha Portuguesa. Para esse efeito fui “destacado” por algum tempo para a RASTS  - Royal Army School of Training Support, que era escola que ministrava todos os cursos sobre SAT/AST, modelo que era usado pelos 3 ramos das Forças Armadas do UK, e recolher o material pedagógico utilizado para posteriormente ser traduzido para Português.
A escola estava localizada num enorme castelo medieval no meio de uma frondosa floresta, e ministrava também cursos vários para as FA´s da Comunidade Britânica. Devido a este facto, as refeições eram tomadas em 2 enormes mesas numa grande sala toda forrada a madeira; era um verdadeiro desfile militar de fardas coloridas. Uma experiência inesquecível!
Nesse período tive oportunidade de visitar de novo a RNSET para perceber melhor como a SAT era aplicada na Royal Navy em particular nos navios. O oficial que me acompanhou nesta visita, com quem tive longas conversas, era uma figura peculiar, doutorado em Education Technology. Digo peculiar, porque tinha uma “cabeça brilhante”, mas o físico era “pele e osso” e alimentava-se a gin puro!!!! Nessas conversas alertou-me para um aspecto importante e muitas vezes descurado em processos de mudança, para e qual nos tínhamos de preparar…. A Resistência à Mudança.
Dizia, “Não há Mudanças sem Resistências” e tinha uma frase muito curiosa que citava: “as organizações tal como os dragões, comem heróis inovadores ao pequeno almoço” e depois sorrindo dizia…. “também já comi alguns dragões….”.
Para as diminuir havia que suportar o Projecto com um bom Plano de Comunicação. Foi o que fizemos!
Para exemplificar o aparecimento das resistências recordo uma pequena história.
No âmbito de uma das acções de Comunicação na fase inicial da implementação da AST, numa reunião na DSIT com os Directores das Escolas, e após a extensa apresentação do projecto feita pelo Comandante Jorge Mendes, Chefe da nova Repartição, a 4ª-Tecnologia Educativa, um dos Directores que tinha estado sempre com uma postura de desinteresse e algum desprezo, virou- -se para ele e perguntou:… “mas onde é que o Comandante quer chegar?”.
O Jorge Mendes não se aguentou e respondeu com ar furioso “Onde quero chegar? Onde quero chegar? Quero chegar todos os dias a casa ao fim da tarde a tempo de jantar com a minha família “ !
Fez-se um silencia sepulcral, o dito Diretor levantou-se, saiu, e a reunião continuou.
Mais tarde, e já na fase de implementação, tivemos mais histórias de resistência à mudança.
Regressado do UK, iniciei a tradução dos materiais para formar a Equipa que iria conduzir o projecto piloto a partir de 1984.
Entretanto a DSIT acrescentou às três Repartições já existentes, a 4ª Repartição- Tecnologia Educativa liderada pelo já referido Comandante Jorge Mendes, mais dois oficiais superiores, eu e o Comandante Pereira Bastos, e uma secretária polivalente dedicada. Foi a esta Repartição que ficou atribuída a missão de implementar a AST, bem como tudo o que fossem projectos de inovação, como o estúdio de vídeo no G1EA já referido.
Neste processo de várias mudanças, a própria DSIT também mudou de instalações para uma sobreloja localizada no Torreão Sul das Instalações da Praça do Comércio com excelentes gabinetes de trabalho e mobiliário novo. A 4ª Repartição para além dos gabinetes da Equipa tinha mais salas para Grupos de Trabalho, e todos tínhamos terminais de computador ligados ao sistema informático da Marinha o que naquele tempo era raro.
No dizer do Almirante Encarnação Simões, a 1ª, 2ª e 3ª Repartição gerem o presente, a 4ª prepara o futuro!
Posteriormente, em 7 de Abril de 1983, o Almirante CEMA aprovou o relatório do Grupo de Trabalho criado para planear o desenvolvimento da AST que preconizava:
A implementação do sistema seria feita por fases e com a seguinte sequência
a) Lançamento experimental em cursos ITB-Instrução Técnica Básica pré-selecionados. estendendo-se posteriormente aos restantes cursos e à IMB-Instrução Militar Básica;
b) Cursos novos de actualização e aperfeiçoamento desenhados segundo a nova metodologia e reconversão gradual dos existentes, devendo estar terminada esta fase em 31 de Julho de 1985.
c) Lançamento gradual nos cursos de carreira a partir de Outubro de 1985.
A IMPLEMENTAÇÃO
Para a implementação do projecto piloto da AST, tinha que se qualificar uma Equipa com os cursos da RASTS e com o material já traduzido.
Assim, constitui-se uma Equipa de Oficiais e Sargentos que entre Setembro de 1983 e Março de 1984 frequentaram os cursos de Gestão de Sistemas de Treino, Análise de Trabalho e Construção de Objectivos, Concepção e Desenho de Cursos e Técnicas de Teste e Validação do Treino. Estes cursos decorreram nas instalações do CPI-Curso de Preparação de Instrutores em instalações na Escola de Armas Submarinas no Grupo 2 de Escolas (hoje ETNA) no espaço que mais tarde viria a ser atribuído à ETIT-Escola de Tecnologia de Instrução e Treino.
O grupo de oficiais era representativo das escolas que iriam ser abrangidas pelo Projeto Piloto, designamente, Vidal de Pinho (Escola de Electrotecnia), Soares Lopes (Escola de Abastecimento) Lopes da Costa (Escola de Máquinas) e Ramos Gouveia (Escola de Artilharia). Esta foi de facto a “Equipa de Ouro” que conduziu todo o projecto de AST e garantiu o sucesso do projecto piloto.
De acordo com a metodologia da AST, começou-se por um processo de Análise de Trabalho (AT) conduzido pelos oficiais e sargentos entretanto qualificados.
A AT foi aplicada ás praças do SMO das classe de Electricistas ( E ), Radaristas ( R ), Condutores de Máquinas (CM), Condutores de Automóveis (V), Abastecimento (L), Cozinheiros (TFH), Torpedeiros/Detectores (TT/TD) e Fuzileiros (FZ).
A AT decorreu de Outubro de 1984 a Abril de 1985 com as seguintes fases:
• Entrevistas, no local de trabalho (unidades navais e instalações em terra), a uma amostragem de praças do SMO das classes referidas, com mais de 3 meses de serviço no posto de trabalho. O objectivo destas entrevistas era identificar e listar as tarefas que de facto executavam, para posteriormente elaborar os Questionários de Análise de Trabalho.
• Elaborar os Questionários para depois aplicar ao universo do SMO. Os questionários incluíam as listas das tarefas identificadas para cada classe e com uma grelha de resposta de 3 variáveis, segundo o modelo DIF-Dificuldade, I-Importância e F-Frequência.
Esta grelha, que era usada quer na Royal Navy, quer na marinha os EUA permitia, após definir as tarefas, convertê-las em objectivos de treino e decidir quais os que deveriam ser ensinados na totalidade nas escolas e quais os que poderiam ser ensinados parte nas escolas e parte nos locais de trabalho (treino on the job) de que falaremos mais tarde, e os que não seriam ensinados por não terem representatividade detectada nas resposta à grelha DIF.
• Analisar os dados recolhidos dos 1800 questionários administrados, com uma excelente taxa de retorno entre 85 e 90%
- É óbvio que a análise de dados de um volume tão grande de informação não poderia ser feita com uma mera folha de EXCELL. Durante a estadia no Reino Unido tínhamos sido informados que recorriam a um programa informático desenvolvido pela US Navy específico para análise de questionários elaborados segundo o modelo DIF, designado por CODAP- Computer Ocupational Data Analisys  Program. Após identificarmos quem era a entidade gestora do programa, entrámos em contacto, explicámos a necessidade, e prontamente disponibilizaram-se para nos enviar o programa. E um belo dia, lá chegaram, julgo que duas volumosas bobines, com o programa que teria de ser instalado no sistema do Serviço de Informática da Marinha. Após ultrapassadas algumas resistências á mudança do então Director que dizia que o CODAP iria ocupar muito espaço nos servidores, e após uma “ordem superior”, o programa foi instalado, com acesso pelos terminais de que dispúnhamos na DSIT.
- Carregados os dados no CODAP, tivemos de aprender a usar o programa com recurso ao processo de “tentativa e erro” pois não tínhamos tido qualquer formação, até começarem a sair os primeiros prints com tudo aquilo que esperávamos. Foram vários dias e algumas noites que a equipa da 4ª Rep. passou na DSIT. Tenho ideia que quando saíram os primeiros prints com qualidade que abrimos uma garrafa de espumante!!!!!
- A instalação do CODAP, trouxe a possibilidade de conduzir as análises de trabalho e validações externas, como uma autêntica” tenaz” ao que se passa no desempenho das funções, e que anteriormente não tinha forma rigorosa de ser avaliado. É este vector desempenho > instrução> desempenho, o responsável pela possibilidade de desenhar cursos com objectivos mais revelantes relativamente à realidade (análise de trabalho) e por outro lado, corrigi-los logo que recolhida informação (validação externa) sobre a adequação do que foi ensinado à realidade. Por outro lado os utilizadores dor recursos humanos e a responsabilidade do primeiro utilizador (entidade máxima da cadeia de utilizadores para cada curso, por exemplo o Comando Naval do Continente para a maioria do pessoal, a Direcção de Abastecimento para o caso dos TFH’s, ou o Comando do Corpo de Fuzileiros para aqueles profissionais) veio aproximar mais as esferas da formação e da utilização do pessoal, traduzindo-se em maior realismo para a primeira e maior sentido de participação para a segunda.
• Após a Análise de Trabalho e já na posse dos resultados do CODAP que estabeleciam quais as tarefas a ensinar, procedeu-se, para cada uma das ITB´s indicadas à Definição de Objectivos, Desenho dos Cursos e preparação do Sistema de Avaliação. Esta informação, ficava condensada num conjunto de 6 documentos, designada por DOCUMENTAÇÃO DE CURSO. Foram também preparados os Livros de Tarefas. Estes livros incluíam todas as tarefas que tinham totalmente sido ensinadas nas Escolas e as que só tinham sido ensinadas parte na Escola e precisavam de treino complementar nas unidades (treino on the job). Este treino deveria ser orientado pelo responsável da Formação em cada unidade. Por exemplo se a Escola de Máquinas não tinha um dado equipamento que existia nos navios, na Escola ensinava-se a teoria, se possível com imagens e vídeos, e no navio a prática de condução desse equipamento. Este processo foi mais uma das fases com várias resistências à mudança.
• Terminado o projecto piloto, procedeu-se ao balanço, com óptimos resultados da validação externa, e acima de tudo, redução global das ITB´s em 50 semanas!!!
A ETET/ETIT
A adopção do modelo de AST implicava também criar uma estrutura formativa para garantir a formação dos Oficiais e Sargentos, nas Escolas, que iriam ser responsáveis pela continuidade da implementação da AST. Aliás, o despacho de 7 de Abril de 1983 que aprovava a implementação do “Novo Sistema de Instrução”, preconizava, conforme proposto no relatório “Bases Gerais do Novo Sistema de Instrução”, a criação de uma ETET- Escola de Tecnologia de Educação e Treino.
Porém, quando se formalizou junto do CEMA (ao tempo Almirante Sousa Leitão) o termo não foi aceite porque sic. Educação é o que damos em casa aos nossos filhos…. Esqueceu-se talvez que havia um ministério da Educação. Mais uma resistenciazinha.
A Escola nasceu em 1985, e ficou como ETIT- Escola de Tecnologia de Instrução e Treino mediante a Portaria 236/8 com a missão de :
É criada a ETIT- Escola de Tecnologia de Instrução e Treino, integrada no Grupo nº 2 de Escolas da Marinha destinada a preparar o pessoal da Marinha em ordem ao funcionamento eficiente e tecnicamente correcto dos seus estabelecimentos de ensino, mediante os princípios da abordagem sistémica ao treino
A ETIT veio ocupar o espaço que então era do CPI no G2 de Escolas da Marinha, mais concretamente nas instalações da Escola de Armas Submarinas.
A ETIT realizava os seguintes cursos:
- Técnicas de Instrução - 10 dias
- Gestão de Sistemas de Treino - 5 dias
- Análise de Trabalho - 8 dias
- Desenho de Cursos - 5 dias
- Validação da Instrução - 5 dias
A ETIT foi dirigida pelos seguintes oficiais, Cten Vidal de Pinho (1986-1993), Cten EMQ Lopes da Costa (1993-1997), Cten AN Neves Agostinho (1997-1999), Cten FZ Oliveira Monteiro (1999-2001) e Cten. SE Pires Ramos (2001-2003).
Mais tarde, numa reestruração do Sistema de Formação de Marinha, em 2003, a ETIT foi extinta e integrada na ETNA (ex grupo 2 de Escolas da Marinha) como Departamento de Formação em Tecnologias da Educação
A ESCÓCIA
Em 1986, depois da criação da ETIT, bem como da reformulação de diversos cursos pela aplicação novo modelo AST, tomou-se consciência que era chegado o momento de avançar com a especialização em Tecnologia Educativa.
Foi a experiência adquirida em áreas como definição de objectivos, desenvolvimento curricular, avaliação e técnicas de condução de treino, que começou a levantar um conjunto de novos problemas, para os quais se precisou de ir aprofundar estudos a fim de lhes dar resposta.
Das possíveis soluções, optou-se por uma, em tudo inédita, e que constituiu mais uma inovação.
Do contacto com as principais Universidades Portuguesas, verificou-se que nenhuma tinha formação superior naquele domínio. Virámo-nos então para a pesquisa fora de Portugal. Só que, nessa altura, não havia INTERNET, a qual só foi introduzida em Portugal em 1994, nem Google. Porém, uma das Universidades que tínhamos contactado, o ISCTE, tinha uma sala específica com uma ligação por
rede para os seus investigadores e disponibilizou-se para nos deixar utilizar. Tinha um custo/hora cujo valor já não me recordo. Lá passei várias horas mas resultou. Identificámos aquilo que pretendíamos, na Escócia, o Northern College of Education em Dundee.
Os cursos ministrados recorriam ao método de ensino a distância, o que permitia, por um lado reduzir muito os custos, e por outro não retirar os alunos do seu meio de trabalho.
Os cursos ministrados eram os seguintes:
- Tecnologia Educativa e Objectivos
- Avaliação,
- Desenho de Cursos e Métodos do Ensino
- Desenho de Ajudas de Instrução
- Psicologia Educacional e Estudos Curriculares
- Desenho de Cursos
A pós-graduação em Tecnologia Educativa constava de três fases que terminava com o desenvolvimento de um projecto, durava o total de 3 anos lectivos, e dava direito a um Diploma Avançado.
Caso os alunos frequentassem na Universidade, para além dos módulos de ensino a distância, dois blocos anuais, de uma semana cada, então esta passava um Diploma de pós-graduação do Council for National Academic Awards]. Após contacto com a Universidade, esta aceitou inscrever alunos da Marinha Portuguesa para o ano lectivo de 1986/87. Assim foram inscritos: - eu próprio, e o Comandante Vidal de Pinho, respectivamente no Curso de Desenho de Cursos e de Concepção de Materiais de Ensino. A inscrição foi precedida de uma avaliação dos curricula e de um teste de admissão.
O Comandante Vidal de Pinho completou a pós-graduação em Tecnologia Educativa, bem como, mais tarde, outros oficiais ligados ao sistema de instrução/ formação e ETIT nomeadamente o seu último Director Comandante Pires Ramos
Todo o curso, bem como os módulos isolados, incluíam um sistema de avaliação contínua com testes formativos e sumativos assegurando assim um acompanhamento permanente do progresso dos alunos. Para além disso, e essa era uma das características fundamentais da metodologia de ensino à distância, cada aluno dispunha de um tutor dedicado que garantia um elo constante de ligação do aluno à Universidade.
Como funcionava? Simples, recebíamos os materiais por correio, realizávamos os módulos, fazíamos os testes de cada modulo que devolvíamos para correcção. Alguns voltavam para trás para reformular e só depois disso é que recebíamos o material do próximo módulo. Os testes eram de desenvolvimento e não eram fáceis. Quando necessário havia contacto telefónico com o tutor.
Da frequência dos cursos da Escócia permitiu concluir que tinha sido um bom investimento com retorno, e a importância que os conhecimentos adquiridos tiveram para o desenvolvimento da Tecnologia Educativa na Marinha.
Uma parte importante desses conhecimentos foi introduzida nos cursos de Desenho de Cursos e de Análise de Trabalho da ETIT com resultados muito animadores.
OUTROS PROJECTOS DESENVOLVIDOS PELA 4ª REPARTIÇÃO-TECNOLOGIA EDUCATIVA DA DSIT
• Padrões navais, educacionais e ocupacionais
Para proceder à identificação das necessidades gerais de qualificação dos Sargentos e Praças e tendo em vista orientar a sua formação e progresso na carreira, procedeu-se à elaboração dos PADRÕES NAVAIS, OCUPACIONAIS e EDUCACIONAIS
No tocante aos PADRÕES NAVAIS, adaptou-se à Marinha Portuguesa os “Naval Standards” da Marinha americana, que não eram mais do que uma listagem de conhecimentos, perícias e atitudes que constituíam requisitos gerais do âmbito militar-naval a que um sargento ou praça deveria satisfazer e que eram comuns às diversas classes, diferindo somente consoante o posto de cada um.
No que respeita, aos PADRÕES OCUPACIONAIS, enunciados em termos de tarefas a executar, era através deles que se iriam definir quais os conhecimentos e competências a adquirir pelos militares da Marinha no campo técnico-profissional, dependentes não só do seu posto, mas também da classe (subclasse ou ramo) a que pertencia tendo em vista o desempenho de funções específicas. A definição destes padrões seria feita a partir de resultados das Análises de Trabalho.
No tocante aos PADRÕES EDUCACIONAIS a DSIT já se vinha debruçando há uns anos sobre o ensino a sargentos e praças das disciplinas tradicionalmente conhecidas por “Habilitações Literárias” constituídas basicamente pelo Português e pela Matemática.
De facto, este ensino era uma grande área de estorço, com custos elevados. da qual, apesar das tentativas empreendidas, nunca se tinha conseguido erradicar alguns defeitos. De facto foram-se acentuando os desajustamentos entre os processos praticados pela Marinha em matéria de âmbito educacional, e a realidade que se encontrava em rápida mutação.
Para além disso tinha-se verificado uma grande alteração nas habilitações com que o pessoal chegava à Marinha e também significativas modificações nos conceitos e métodos no ensino formal.
Assim, a DSIT, confrontada com o baixo índice da relação custoeficácia do sistema existente, elaborou e submeteu á aprovação superior um modelo de PADRÕES EDUCACIONAIS
O modelo preconizado desenvolvia-se segundo duas áreas educacionais distintas – a básica e a geral – não divergentes, mas com origens e metas diferençadas.
A primeira, relacionada com os requisitos educacionais a que qualquer indivíduo tem que satisfazer para um correcto desempenho das ocupações ou cargos próprios do seu posto, implicava o domínio de instrumentos básicos ou capacidades funcionais nos campos fundamentais da língua materna e do raciocínio matemático.
A segunda área, designada por área educacional geral, desejável do ponto de vista de valorização pessoal, profissional e social, correspondia ao desenvolvimento das capacidades de compreensão e análise da realidade física e social, constituindo um conjunto de conhecimentos fundamentais, pela sua relevância. no quotidiano do pessoal e no contexto da Marinha e da sociedade actual.
O modelo preconizava a implantação de TESTES DE APTIDÃO BÁSICA (TAB) nos domínios da comunicação linguística e do cálculo matemático que permitiriam definir níveis de aptidão a estabelecer como exigências básicas de admissão e de progressão na carreira.
Como esta área não era dominada pelos oficiais da 4ª Repartição foram contratados dois especialistas em ciências de educação para o desenvolvimento do programa que compreendia a elaboração de três níveis de testes  de aptidão básica, a sua validação por entidades competentes e a elaboração
de módulos de formação, relativos às aptidões a testar, que permitiriam ao pessoal que eventualmente viesse a não satisfazer aos padrões exigidos corrigir as deficiências detectadas, em sistema de auto-estudo.
Este auto-estudo estaria disponível no CIC-Centro de Instrução por Correspondência que foi dotado de meios materiais e humanos em conformidade. O CIC foi o percursor do CNED. Centro Naval de Ensino a Distância criado em Junho de 1992.
Os três níveis dos testes tinham uma complexidade que se situava em termos de conhecimentos respectivamente, no 6º ano de escolaridade (nível 3), entre o 6º e o 9º (níveis 2) e à altura do 9º ano (nível 1) e correspondiam aos níveis de conhecimentos mínimos que iriam constituir a exigência básica para progressão na carreira de acordo com as seguintes etapas: ingresso nos Quadros Permanentes (QPs), promoção a cabo e admissão ao Curso de Formação de Sargentos.
Este processo de elaboração dos PADRÕES, foi como se pode imaginar, de grande complexidade e esteve a cargo, na 4ª Repartição, dos Comandantes Jorge Mendes e Pereira Bastos.
• Competências Linguísticas - Língua Inglesa
Com a aproximação da recepção dos novos meios navais, previu-se a frequência de cursos relacionados com tal facto já em 1988. Para tal foi tomada na DSIT a decisão de criar um Centro de Treino de Língua Inglesa, com grande capacidade, para Sargentos e Praças, que viesse alterar o panorama de tal área educacional na Marinha.
A questão não se colocava em relação aos Oficiais pois a Escola Naval já tinha implantado desde 1986, um novo sistema de aprendizagem de inglês, pelo que todos os futuros oficiais sairiam da Escola Naval com níveis entre 9 a 12, numa escala em que o 9 significa um do mínimo razoável da comunicação para fins práticos e em que o 12 é o nível máximo.
O Centro seria dirigido tecnicamente por um Centro de Línguas implantado em Portugal há cerca de 17 anos, o INTERNATIONAL HOUSE o qual representava simultaneamente a Universidade de Oxford para efeitos pedagógicos e de avaliação. Aquela entidade disponibilizaria para este projecto um director pedagógico, um director de estudos e dez professores todos de naturalidade inglesa e obedecendo a pré-requisitos exigidos para os respectivos cargos.
O Centro de Treino teria capacidade inicial para o ensino simultâneo de 30 turmas, de 14 alunos cada. Cada turma frequentaria um dos 3 níveis de aprendizagem a implantar, sendo a duração de cada nível de 90 horas, num regime de 2 períodos de 3 horas por semana.
Isto queria dizer que os alunos frequentariam o Centro de Línguas em regime de acumulação, com os seus serviços, e ao ritmo de 2 meios dias por semana. Antes de entrar num nível, o aluno teria de realizar um teste de colocação, ou de passagem se já tivesse frequentado um anterior.
O conteúdo dos 3 níveis a implantar obedeceria às mais modernas técnicas de aprendizagem de línguas, tendo nomeadamente em consideração que se tratava de adultos e de profissionais de um meio específico. Também em matéria de métodos e meios ir-se-ia recorrer ao vídeo e a ensino assistido por computador, quando aplicável. O Centro funcionaria em dois polos ficando um no Grupo nº 2 de Escolas da Armada {ao qual havia a intenção de atribuir a missão de apoio e a gestão administrativa do Centro) e o outro no edifício da Administração Central da Marinha. Em cada polo haveria 4 salas de aula, que funcionariam de 2ª a 6ª feira.Outra preocupação era estudar a questão da motivação na aprendizagem do inglês. Para ter êxito, este sistema não poderia apenas assentar nas garantias oferecidas pela entidade responsável pelo ensino. Era preciso contar com a motivação dos alunos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como já foi referido, este terá sido sem dúvida, o período de maior mudança, de que se tem conhecimento, no Sistema de Formação na Marinha. Como passei à Reserva em Abril de 1988 desconheço a continuidade das iniciativas posteriormente realizadas
Obtive informação de que, pelo menos até 2003, os cursos continuavam a ser desenhados segundo os princípios da AST.
Não sei, contudo, com que alterações, ou até que ponto Os Dragões Vieram Comer as Inovações ao Pequeno Almoço…..
REFERÊNCIAS
Anais do CMN Jan-Mar e Abr-Jun 1987
Revista da Armada de Agosto de 1985 - Carreiras dos Sargentos e Praças – O Novo
Sistema de Instrução. Cmg Sousa Cerejeiro
Revista da Armada de Novembro de 1987 - ETIT - O que é isso? Cten Vidal de Pinho
Revista da Armada de Dezembro de 1995 – CNED - Centro Naval de Ensino a distância.
Cmg Ferreira da Silva
Livro “As Escolas da Marinha: Uma Resenha (1779-Jan 2014) Autores: João Freire e
Adelino Rodrigues da Costa - Edição da Academia de Marinha - 2024


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